O lucro da mineradora despencou no trimestre, pressionado pela guerra no Oriente Médio e pelo real mais forte. Mas, por trás da manchete ruim, a receita subiu, os metais básicos brilharam e o acionista sai com um dividendo gordo.
A Vale (VALE3) divulgou seu balanço do segundo trimestre de 2026 com um número que assusta à primeira vista: o lucro líquido caiu 43,3% na comparação com um ano antes, somando R$ 6,847 bilhões, ante R$ 12,08 bilhões no mesmo período de 2025. Mas, como quase sempre acontece com a mineradora, a história por trás do número é mais interessante do que a manchete.
Apesar da forte queda no lucro, a receita líquida da companhia cresceu 6,4%, para R$ 53 bilhões, puxada pelo bom desempenho dos metais básicos. Ou seja, a Vale vendeu mais, mas ganhou menos, e vale entender por quê.
Por que o lucro caiu tanto?
O tombo no lucro tem explicações bem concretas, e boa parte delas vem de fora da empresa. A principal foi o aumento dos custos, especialmente o do combustível usado nos navios que transportam o minério. Esse gasto disparou junto com o preço do petróleo, que subiu por causa da guerra no Oriente Médio.
Somaram-se a isso outros três fatores: um resultado financeiro pior, ligado a perdas com derivativos, o aumento da carga de impostos e o real mais forte, que reduz o valor em reais de uma empresa que fatura boa parte em dólar. Por fim, o próprio minério de ferro, principal produto da Vale, teve um trimestre mais fraco. Em nota, a companhia afirmou que o resultado mostra resiliência diante de um cenário global mais desafiador.
Mas nem tudo foi ruim
Aqui está o lado que animou o mercado. O grande destaque positivo foram os metais básicos, um negócio que a Vale vem tentando fazer crescer. O resultado operacional do cobre disparou mais de 90% no ano, impulsionado pela alta dos preços, e o níquel também avançou.
Além disso, boa parte da queda do lucro veio de fatores extraordinários e pontuais. Desconsiderando esses efeitos, a geração de caixa medida pelo Ebitda teria até crescido. Não à toa, o resultado operacional agradou os analistas, com casas como a XP destacando que os números vieram acima do esperado. Para quem investe, o desempenho do dia a dia da empresa foi melhor do que o susto do lucro sugere. Esse balanço, aliás, era um dos mais aguardados do pregão, como já apontava o resumo do mercado do dia anterior.
Dividendos e recompra animam o acionista
Talvez a melhor notícia para quem tem a ação: mesmo com o lucro menor, a Vale foi generosa. A companhia anunciou a distribuição de cerca de R$ 8,6 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio.
Não parou aí. A mineradora também aprovou um novo programa de recompra de ações, com o qual pode adquirir até cerca de 2,3% do seu capital. Recompras costumam ser bem vistas pelo mercado, porque reduzem o número de papéis em circulação e tendem a valorizar as ações que sobram. Juntas, as duas medidas mostram confiança da empresa na própria geração de caixa.
Custos mais altos e turbulência na cúpula
Nem tudo, porém, são boas notícias. A Vale revisou para cima suas projeções de custo do minério de ferro para 2026, sinal de que a pressão sobre as despesas deve continuar. O custo caixa e o custo total por tonelada passaram a ser estimados em patamares mais altos do que a companhia previa antes.
Há ainda um ruído na governança. Em julho, o presidente e o vice-presidente do conselho de administração renunciaram: Daniel Stieler saiu após pressão do fundo de pensão Previ, e Marcelo Gasparino, após acusação de vazamento de informações. As duas saídas estão sob investigação da CVM, o xerife do mercado de capitais, que apura inclusive um pacote financeiro concedido a Stieler. É um ponto de atenção que o investidor deve acompanhar.
O que fica no radar
Nos próximos meses, os olhos estarão sobre três frentes: o comportamento do preço do minério de ferro e do petróleo, que ditam receita e custos; a capacidade da Vale de controlar as despesas dentro do novo guidance; e a definição da nova composição do conselho, para acalmar o ruído de governança.
No fim das contas, o balanço mostrou uma Vale de dois lados: pressionada no lucro por fatores externos, mas sólida na operação e generosa com o acionista. Para quem investe pensando em dividendos, a mineradora seguiu entregando, mesmo num trimestre difícil.